CRISES INDIVIDUAIS E DECADÊNCIA COLETIVA Gênesis 1.1—11.26
Em uma série de histórias e genealogias altamente condensada, esta seção do livro
trata da origem do universo, da origem da ordem nesta terra, da origem da vida, da origem do homem, da origem do pecado, da violência e desordem, e da origem das diferenças nacionais e lingüísticas.
B . O Criador em R elação à Criação, 2 .4— 3 .2 4 A significação especial do homem como a mais sublime criação de Deus é o ponto
central desta história. Ela descreve a relação ideal entre Deus e o homem, a qual, por sua vez, é a base para a relação ideal entre o homem e a mulher no casamento. Como ponto contrastante, aqui é mostrada a natureza do pecado que leva estas relações ao caos.
A história tem uma seqüência clara. Há um cenário geral (2.4-14), uma ordem (2.1517), a inserção do ato criativo (2.18-25), um ato de violação (3.1-8), um questionamento (3.9-13), um julgamento (3.14-21) e uma expulsão (3.22-24). Pelo fato de o capítulo 3 conter a narrativa da violação e do julgamento, seu tom de dúvida, medo e raiva é notavelmente diferente do encontrado no capítulo 2, que possui uma atmosfera de paz, harmonia e encanto.
1. O Homem com o Fôlego da Vida (2.4-7) A palavra gerações tem um significado mais vasto que o termo genealogia. O conceito de
origens (4) não é essencial à palavra. Há outras dez ocorrências em Gênesis (5.1; 6.9; 10.1; 11.10,27; 25.12,19; 36.1,9; 37.2), uma delas (37.2) sem ter genealogia; mas, na maioria dos casos, é apresentado muitos acontecimentos significativos, como também uma genealogia. Certos expositores colocariam a primeira parte do versículo 4 com o material precedente, mas nas outras ocorrências em Gênesis a expressão: Estas são as origens de (ou gerações de), serve de cabeçalho ao que vem a seguir. E o que acontece aqui. Há paralelo entre os versículos 4 e 5 deste capítulo e os versículos 1 e 2 do capítulo 1.
Porém, o capítulo 2 fala pouco sobre os eventos criativos intermediários que levam à criação do homem. Não há indicação clara de que a história no capítulo 2 tenha alguma parte na seqüência de tempo do aparecimento de plantas e animais. Pelo contrário, a atenção é focada no fato de que sem chuva e o cuidado vigilante do homem a terra era originariamente estéril. Por conseguinte, Deus forneceu umidade e formou o homem para que as plantas que precisam de cultivo frutificassem. Mais detalhes sobre a criação do homem são dados aqui que em 1.27. Em 2.7, o
homem é apresentado como criatura da terra. Ele é formado do pó. Com profundo interesse, Deus inalou vida no homem, ato que realça o fato de que a vitalidade do homem e a dinâmica interna vêm diretamente de Deus. Qualquer outro objeto do afeto e esperança do homem é ilusão. Ele é feito para dois mundos; portanto, ser separado de Deus é murchar como o fruto de uma videira cortada. As duas expressões: o fôlego da vida (7, nishmat chayyim) e a alma vivente {nefesh
chayyah) têm muito em comum. Ambas podem ser usadas para referir-se tanto a animais como ao homem. Fôlego (nishmat) está mais associado com o homem, mas é designado a animais em 7.22. Alma vivente se aplica a todos os tipos de animais em 1.20,21,24,30; 2.19; 9.12,15,16. O termo hebraico nefesh tem conotação mais ampla que o termo nishmat. Ambos
podem significar “respiração, fôlego, hálito”, mas nefesh também inclui estes significados: ser vivo, alma, vida, ego, pessoa, desejo, apetite, emoção e paixão.13 O homem é único. Ele é o que é, porque Deus... soprou em seus narizes o fôlego da vida. Deus nunca fez isso com um animal.
2. O Jardim da Delícia (2.8-14) A palavra jardim (8) é tradução da palavra hebraica gan, que designa lugar fechado. A Septuaginta traduz o hebraico por “paraíso”, paradeison, termo persa que significa um parque. Éden não é traduzido mas transliterado para nosso idioma. Basicamente, significa
“prazer ou delícia”. Parece indicar uma região. Éden pode ser derivado da palavra assíria
edinu, que significa “planície, pradaria ou deserto” e designa a terra entre o rio Tigre e o rio Eufrates. Se a frase saía um rio (10) for compreendida no sentido de rio acima, o
jardim estaria situado no vale mesopotâmico inferior. Se for entendida no sentido de rio abaixo, teria de estar situado na Armênia, onde as nascentes dos rios Tigre e Eufrates se originam perto uma da outra (ver Mapa 1). Atualmente, não há como obter conclusão definitiva sobre esta questão. Mais importante para a história é a presença da árvore da vida e da árvore da
ciência do bem e do mal (9). Pelo visto, a primeira árvore mencionada era a fonte de vida, da qual o homem, depois que pecou, teve de ser separado (3.22-24). Uma “árvore de vida” é mencionada em Provérbios 3.18; 11.30; 13.12; 15.4, onde, em sentido figurado, representa fonte de felicidade, sabedoria e esperança. A frase também é encontrada no Livro do Apocalipse como o dom supremo para o crente fiel (Ap 2.7) e como símbolo da vida eterna (Ap 22.2,14). Com respeito à árvore da ciência do bem e do mal, os dois opostos, o bem e o
mal, representam os extremos da ciência ou conhecimento e, assim, servem de expressão idiomática para referir-se à perfeição — neste caso, onisciência e poder. Em Deuteronômio 1.39 e Isaías 7.14-17, a falta de conhecer o bem e o mal indica imaturidade, ao passo que em 2 Samuel 19.35, a plena maturidade está, por vias indiretas, associada com a habilidade de discernir entre o bem e o mal. Mas Gênesis 3.5 sugere que este poder é atributo divino, e Provérbios 15.3 faz a afirmação clara de que é equivalente de onisciência (ver 2 Sm 14.17; 1 Rs 3.9). O rio Pison (11) nunca foi satisfatoriamente identificado, embora haja suposições,
entre as quais figuram o rio Indo, da índia. Havilá (11) diz respeito a um país arenoso que produz ouro bom. Essa terra também produzia bdélio (12), resina de grande valor conhecida pelos israelitas (ver Nm 11.7). E duvidoso que pedra sardónica (12) seja a tradução correta do termo hebraico sfioham; a Septuaginta sugere berilo. A identificação de Giom (13) é desconhecida. Há muito que o rio Nilo é conjetura
favorita, porque a Septuaginta e a Vulgata identificam a palavra hebraica kush (Cuxe) com a Etiópia. Mas, pela razão de Gênesis 10.7-10 mencionar que os descendentes de Cuxe são árabes e tribos ou cidades mesopotâmicas, há quem afirme que Giom é o rio Araxes, que deságua no rio Ciro e depois desemboca no mar Cáspio. Cuxe seria o nome hebraico para referir-se aos cassitas que habitavam naquela região. O nome do terceiro rio é Hidéquel (14), que é o famoso rio Tigre (ver Mapa 1), o
qual em acádio antigo era chamado idiqlat. O rio Eufrates corre paralelo ao rio Tigre, com o qual se unia para irrigar o vale mesopotâmico. Ainda é um rio importante. O nome assírio era puratu, mas no persa antigo era ufratu, que serviu de base para a palavra grega euphrates.u
3. A Ordem que Fixou Limites (2.15-17) Quando Deus colocou o homem no jardim (15), Ele lhe deu duas tarefas: para o
lavrar e o guardar. Em contexto agrícola, lavrar significa cultivar, ação que inclui o ato de podar videiras. Quando ordenou o SENHOR Deus ao homem (16), Ele deixou claro sua relação
soberana com o homem e a relação subordinada do homem com Ele. Deus tinha este direito, porque Ele é o Criador e o homem é a criatura.
Para expressar proibição, aqui é empregada a maneira mais forte possível em
hebraico para colocar a árvore da ciência do bem e do mal (17) fora da alçada do homem. Visto que o discurso direto é inerentemente pessoal, a ordem: Não comerás, é pessoal e a qualidade do negativo hebraico a coloca em negação permanente. A importância da ordem é aumentada pela severidade do castigo. Isto é muito forte na sintaxe hebraica, sendo que a força é um tanto quanto mantida na tradução com a palavra certamente.
4. A Mulher que Deus Formou (2.18-25) Havia um aspecto da criação de Deus que não estava totalmente satisfatório. O fato
de o homem ainda estar só (18) não era bom. O isolamento é prejudicial. Por dedução, a relação social, ou seja, o companheirismo, é bom. Por conseguinte, Deus determinou fornecer ao homem uma adjutora que esteja como diante dele, literalmente, uma ajudante que lhe correspondesse, alguém que fosse igual e adequada para ele. “Uma ajudante certa que o complete” (VBB). A Bíblia Confraternidade traduz: “Uma ajudante como ele mesmo”. Considerando que não há formas de tempos verbais em hebraico, não se conclui
necessariamente que Deus formou os animais depois de ter formado o homem. Pode igualmente significar que depois que o homem foi colocado no jardim, os animais que Deus previamente formara foram trazidos a Adão (19). A seqüência de tempo não é o item importante aqui. Um aspecto da imagem de Deus foi demonstrado pelo poder de Adão discernir a
natureza de cada animal e dar um nome certo, pois em hebraico, nome e caráter coincidiam. Quando Adão pôs os nomes (20), ele mesmo foi capaz de discernir que nenhum dos animais era uma adjutora que estivesse como diante dele. Ele, como também Deus, tinha de saber disso para apreciar o que Deus estava a ponto de fazer. O sono pesado (21) é o tipo no qual os sentimentos ou capacidade emotiva deixam
de funcionar normalmente. Ver Gênesis 15.12; Jó 4.13; 33.15, onde a frase está ligada com visões; e 1 Samuel 26.12 e Jonas 1.5, onde o termo não está relacionado com visões. Ver também Isaías 29.10, onde a expressão sugere falta de sensibilidade espiritual. A costela (22) pode significar o osso e a carne que a envolve. E a parte do corpo mais próxima do coração, que para os hebreus era o lugar dos afetos. A mulher não foi feita de substância inferior. Para acentuar a singularidade deste ato, é usado um verbo hebraico diferente (yiben),
que significa “construir”, detalhe completamente perdido na palavra traduzida por formou. Deus trouxe-a a Adão para sua aprovação e avaliação. Assim, parte da história segue a seqüência dos dias criativos no capítulo 1, isto é, a decisão (18-20), o ato criativo (21,22) e a aprovação (23). De imediato, Adão (23) viu a conveniência desta ajudante. Ela era parte íntima
dele, osso dos meus ossos e carne da minha carne e, desta forma, adequada para ele. Mas ele também demonstrou sua posição de autoridade ao lhe dar um nome. Com efeito, esta foi a instituição da relação matrimonial. Desde o princípio, Deus
quis que o casamento fosse exclusivo e íntimo. Não era simplesmente para a mulher agarrar-se ao homem como um apêndice. Para deixar clara a responsabilidade do homem, Deus ordenou que o homem se apegasse à sua mulher (24) no compromisso
mútuo da verdadeira união. O casamento tem de permanecer irrompível ao longo da vida, pois foi dito: E serão ambos uma carne, ou seja, uma identificação completa entre si. E nisto eles não se envergonhavam (25).
5. A Mulher que a Serpente Iludiu (3.1-5) A serpente (1) se enfiou sorrateiramente no jardim tranqüilo como um visitante
sinistro. Por todo o antigo discurso semítico, os répteis estavam relacionados com influências demoníacas e este versículo descreve que a criatura era mais astuta que todas as alimárias do campo. À medida que a história progride, a serpente é apresentada em todos os lugares como instrumento de certo poder espiritual oculto. No Novo Testamento, Jesus relaciona a serpente ao diabo (Jo 8.44), como também o faz Paulo (Rm 16.20; cf. 2 Co 11.3; 1 Tm 2.14) e João (Ap 12.9; 20.2). Em todos estes exemplos, a fonte da tentação é objetivamente distinta de Deus ou do ser humano. Em nenhum caso, a serpente é considerada apenas a “personificação da tentação”15 ou a “representante do poder da tentação”.16 A serpente começou a conversa com uma expressão de surpresa: Não comereis de
toda árvore do jardim?, e passou a citar erroneamente a ordem original de Deus, tornando-a absurda. A proibição original estava relacionada só com uma árvore, mas a serpente disse de toda árvore, frase que em 2.16 é encontrada na ordem permissiva e não na ordem negativa (2.17). A serpente pôs em dúvida a bondade de Deus: Ele foi muito restritivo, retendo desnecessariamente benefícios de grande valor. Esta primeira pergunta era aparentemente inocente, mas enganou a mulher (2),
fazendo com que ela também citasse erroneamente a ordem. Ela tornou a proibição muito mais forte do que realmente era. Deus não dissera: Nem nele tocareis (3). Mas Ele fizera a ameaça de castigo muito mais forte do que para que não morrais. Ela tornou, sem perceber, a ordem irracional e o castigo mera possibilidade, em vez de ser um resultado inevitável. A mulher perdeu a oportunidade de ouro de derrotar a sugestão da serpente. Tivesse ela citado a ordem corretamente e se aferrado a ela, o inimigo não teria podido prosseguir com seu intento. A serpente percebeu a vantagem e passou a negar categoricamente a verdade da
declaração punitiva de Deus, declarando positivamente: Certamente não morrereis (4). Ele concentrou seu ataque incitando ressentimento contra a restrição e suscitando desejo de poder. Deus não estava usando a finalidade da morte como dispositivo para sonegar ao gênero humano a descoberta de algo — se abrirão os vossos olhos (5)? Ele não estava impedindo o homem de possuir um bem que o homem tinha o direito de ter? A serpente estava acusando Deus de motivo impróprio, de egoisticamente manter o homem em nível de existência inferior. O verdadeiro destino do homem, a serpente indicou, era ser como Deus. A característica principal do ser divino era o poder de saber o bem e o mal.17 Este saber não era conhecimento abstrato, mas a habilidade prática de saber todas as coisas, inclusive a inteligência de inventar e estabelecer padrões éticos. Engenhosamente, a serpente sugerira que desobedecer a ordem de Deus ocasionaria, não a morte, mas uma vida completa e rica para o homem. Não foram feitas promessas positivas, só a sugestão de possibilidades que eram fascinantes e misteriosas. Este era o apelo nuclear do paganismo, a crença de que grandes realizações, pensamento
profundo ou ritual cuidadosamente observado introduziriam a pessoa no reino divino. Este também é o pecado básico do homem, alcançar o estado de ser absolutamente livre e auto-suficiente. Em 3.1-6, temos “O Apelo da Serpente”. 1) Ao desejo físico, 6ab; 2) À curiosidade intelectual, 5; 3) À disposição de auto-afirmação, 1,3 (G. B. Williamson).
6. O Ato de Violação (3.6-8) Os argumentos da serpente atraíram três facetas da natureza da mulher, cada uma
parte legítima de sua natureza de criatura. A fome física foi estimulada, pois aquela árvore era boa para se comer (6). O apetite estético foi provocado, pois era agradável aos olhos. E a capacidade de sabedoria e poder foi atiçada, pois era árvore desejável para dar entendimento, o que incluía a habilidade de dominar os outros (cf. a tentação de Jesus, Mt 4.1-11; Lc 4.1-13; 1 Jo 2.16). Na verdade, há muito que a mulher fora derrotada e sua contemplação logo resultou
em ação. A ordem de Deus foi desobedecida e, incrivelmente, seu marido a seguiu na desobediência. Depois de terem comido, foram abertos os olhos de ambos (7), mas não do modo em que a serpente indicou. Em vez de passarem para um nível de existência superior, eles caíram a um nível inferior. Eles conheceram que estavam nus. Em vez de ficarem unidos com Deus, alcançando essência igual com Ele, eles foram alienados um do outro pela consciência de que seu ato não produziu o que esperavam.18 A frustração estava relacionada com o novo conhecimento de nudez. A desobediência gerou culpa e vergonha. Em reação ao sentimento de vergonha, os dois apanharam folhas de figueira, com as quais fizeram para si aventais (ou “cintas”). Eram tangas simples e transpassadas. O homem e a mulher estavam familiarizados com a voz do SENHOR Deus (8),
como se deduz pela comunhão freqüente com o Criador. A viração do dia é expressão idiomática para aludir à noite, pois no Oriente Próximo sopra um vento fresco sobre a terra ao pôr-do-sol. Desta vez, o casal não estava preparado para encontrar-se com Deus. A expressão a presença é caracteristicamente vívida em hebraico. Não é uma influência vaga e indefinível, mas uma confrontação direta, bem definida e pessoal. O casal culpado escondeu-se, mas de nada adiantou.
7. A Intimação para Comparecer na Presença de Deus (3.9-13) A pergunta: Onde estás? (9), não foi feita por Deus não saber o paradeiro deles,
mas porque Ele queria induzir a resposta e fazer o homem e a mulher saírem do esconderijo pela própria confissão. A resposta de Adão: Temi (10), esclarece o motivo de terem se escondido. Participar
do fruto da árvore não o fez semelhante a Deus, como sugeriu a serpente, mas comprometeu sua verdadeira essência de ser homem diante de Deus. Deus conhece o bem e o mal da perspectiva da bondade divina e soberana. Mas o
homem, sendo homem e dependente de Deus, só pode conhecer o bem e o mal da perspectiva da obediência à vontade de Deus ou da perspectiva da desobediência, que é a rejeição da vontade expressa de Deus. O alcance do homem ao estado divino só o lançaria no papel da desobediência; por conseguinte, seu conhecimento do bem e do mal estava misturado com culpa e medo.
A primeira pergunta foi feita diretamente ao homem: Comeste tu? (11). Adão não
tinha desculpa, porque ele sabia qual era a ordem. Tratava-se de uma proibição simples e clara. Mas Adão não enfrentou sua responsabilidade; ele passou a culpa para a esposa — ela me deu (12) — e Deus não a deu para ele? Certamente, ela era digna de confiança como guia para a ação. A mulher (13) também tentou evadir-se da responsabilidade, dizendo: A serpente
me enganou. Então ela se deu conta de que a serpente “a fez de boba”. Em 3.6-11, G. B. Williamson destaca “Deus e o Pecador”. 1) O pecado causa culpa
pessoal, 7,10,11; 2) O pecado separa Deus e o homem, 8b; 3) Deus busca o homem pecador, 8a,9; 4) Deus perdoa a culpa do homem, 21.
8. O Pronunciamento dos Veredictos (3.14-19) Os pecados cometidos estão refletidos nas punições, as quais foram aplicadas em
partes. A serpente (14) foi amaldiçoada. Mais que é tradução incorreta, pois sugere que outros animais também foram amaldiçoados. O sentido correto é “à parte” ou “separado de entre”. Moffatt traduz: “Uma maldição em ti de todas as criaturas!” A serpente posou como supremamente sábia, mas sua maneira de se locomover sempre seria símbolo de sua humilhação. A frase sobre o teu ventre não significa que a serpente tinha originalmente pernas e as perdeu no momento em que a maldição foi imposta, mas que seu modo habitual de locomoção tipificava seu castigo. A frase pó comerás é idiomaticamente equivalente a “tu serás humilhado” (cf. SI
72.9; Is 49.23; Mq 7.17, onde a frase “lamberão o pó” tem claramente este significado). O castigo envolveria inimizade (15), hostilidade entre pessoas. A semente da serpente, que Jesus relaciona aos ímpios (Mt 13.38,39; Jo 8.44), e a semente da mulher, têm ambas sentido fortemente pessoal.19 Deus disse à serpente: A Semente da mulher te ferirá a cabeça. Compare a referência de Paulo a isto em Romanos 16.20. A serpente só poderia ferir o calcanhar da Semente da mulher. De fato, ferir não é forte o bastante para traduzir o termo hebraico, que pode significar moer, esmagar, destruir. Uma cabeça esmagada que leva à morte é contrastada com um calcanhar esmagado que pode ser curado. O versículo 15 é chamado “proto-evangelho”, pois contém uma promessa de esperança para o casal pecador. O mal não tem o destino de ser vitorioso para sempre; Deus tinha em mente um Vencedor para a raça humana. Há um forte caráter messiânico neste versículo. Em 3.14,15, vemos “O Calcanhar Ferido”. 1) O Salvador prometido era a Semente
da mulher — o Deus-Homem; 2) Esta Semente Santa feriria a cabeça da serpente — conquistar o pecado; 3) A serpente feriria o calcanhar do Salvador — na cruz, ele morreu (G. B. Williamson). O castigo da mulher seria o oposto do “prazer” que ela procurou no versículo 6. Ela
conheceria a dor (16) no parto, que é bem diferente do novo tipo de vida que ela tentou alcançar pela desobediência. Igualmente, a futura ligação do seu desejo ao seu marido era repreensão à sua decisão de buscar independência. Ela sempre seria dependente dele. Em 3.1-15, Alexander Maclaren vê “Como o Pecado Entrou”. 1) O induzimento ao
mal, 1-5; 2) A entrega ao tentador, 6; 3) As conseqüências fatais, 7-15. Deus pôs uma maldição diretamente na terra em vez de colocá-la no homem. Adão foi
comissionado a trabalhar com a terra (2.15), mas já não seria por puro prazer. O homem se
submeteu tão facilmente ao apelo da mulher que ele comeu o fruto proibido. Agora seu trabalho na terra seria misturado com dor (17). De todos os lados, ele seria confrontado por competidores: espinhos e cardos (18), que crescem profusamente sem cultivo e não produzem comida para o homem. Em Oséias 10.8, estas plantas aparecem como símbolos de julgamento e desolação no lugar da adoração. Compare também com Juizes 8.7,16; 2 Samuel 23.6; Salmo 118.12; Isaías 32.13; 33.12; Jeremias 4.3; 12.13 e Ezequiel 28.24. Em todo caso, uma conotação ruim é ligada à natureza destas plantas (ver tb. Mt 13.7; Hb 6.8). A morte física não seria imediata, mas seria inevitável, porquanto és pó e em pó te
tomarás (19). O tipo imediato de morte que o homem sofreu foi espiritual: separação de Deus. Em 3.14-19, encontramos retratada “A Maldição Causada pelo Pecado”. 1) Na serpente, 14; 2) Na mulher, 15,16; 3) Em Adão, 17,19.4) Na terra, 17b,18 (G. B. Williamson).
9. A Expulsão do Jardim do Éden (3.20-24) Na melancolia sombria do julgamento havia raios de esperança e misericórdia. O
homem podia ver a possibilidade de um futuro através de sua esposa. Agora ele a chama Eva (20), que significa “vida”, pois dela viria uma posteridade. Misericordioso, Deus providenciou para eles túnicas de peles (21). Estas
indumentárias podem ter vindo de animais sacrificados, ainda que o texto não o diga especificamente. Há um toque de ironia na observação divina de que este casal humano é como um
de nós (22). A preposição de (min) destaca uma nítida distinção entre Deus e o homem em vez de mostrar identidade. Está em contraste com como um, que denota unidade. O homem e a mulher tinham buscado ser como Deus, que sabe o bem e o mal, como seres que são soberanos. Mas nunca poderiam alcançar este status. Eles só possuíam o fôlego (2.7) e a imagem (1.26,27) de Deus. Por conseguinte, sua intrusão em um âmbito que não era deles foi uma negação do seu estado de criatura e uma rebelião contra a singularidade do Criador. O homem tinha de ter o acesso impedido à árvore da vida para que ele não se fixasse na rebelião. Os querubins (24) são seres angelicais que representam o poder de Deus e estão
relacionados com seu trono. Duas figuras de querubins estavam na tampa da arca (Êx 25.18-22; 37.7-9), e muitos estavam entretecidos nas cortinas do tabernáculo (Êx 26.1,31; 36.8,35) e esculpidos nas paredes e portas do templo (1 Rs 6.23-35; 2 Cr 3.10-13). Ezequiel os descreveu com a combinação de quatro faces: um leão, um boi, uma águia e um homem, com mãos de homens, pés de bezerros e quatro asas (cf. as quatro criaturas de Ap 4.6-8). Estas criaturas foram incumbidas com a tarefa de deter o acesso do homem à árvore da vida enquanto este estiver carregado com o fardo do pecado.20
continuamos no proximo post


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