B. A Natureza dos Discípulos, 5.3-16 1. As Bem-aventuranças (5.3-12) a)
Os Pobres de Espírito (5.3). Cada beatitude começa com bem-aventurados, o
que lembrava aos ouvintes o Salmo 1.1. Lenski comenta: “ ‘Bem-aventurado!’ entoado repetidas vezes, soa como sinos do céu, tocando neste mundo amaldiçoado, do alto da catedral do reino, convidando todos os homens a entrar”.8 A palavra grega makarios significa “feliz”. Mas é óbvio que "... as bênçãos contempladas nas Beatitudes não podem de forma alguma ser expressas em nosso idioma pela palavra ou pelo conceito de ‘felicidade’ ”.9 Elas se referem, antes, à bem-aventurança que só vêm para aqueles que desfrutam da salvação em Jesus Cristo. Hunter sugere: “ ‘Abençoado’ significa ‘Ah, a felicidade de’, e a beatitude é a felicidade do homem que, em comunhão com Deus, vive a vida que é realmente a vida”.10 Arndt e Gingrich escrevem: “A tradução Ô, a felicidade de ou saudação àqueles, preferida por alguns, pode ser exatamente correta para o original aramaico, mas ela escassamente exaure o conteúdo que makarios tinha nos lábios dos cristãos de fala grega”.11 John Wesley tem sido seguido por vários tradutores atuais ao adotar “Feliz”. Mas “Bem-aventurado” talvez seja uma tradução mais adequada. Os pobres de espírito (3) são aqueles que reconhecem a sua pobreza espiritual.
Lucas (6.20) diz: “Bem-aventurados vós, os pobres”. Mas, após o cativeiro babilónico, a frase “os pobres” era freqüentemente usada para os piedosos, em contraste com os sores ricos, ímpios e mundanos dos pobres. Assim, as afirmações em Mateus e Lucas significam a mesma coisa. Talvez a melhor tradução de 5.3a seja a de Goodspeed: “Bemaventurados são aqueles que sentem a sua necessidade espiritual”. Por que estes pobres são bem-aventurados? Porque deles é o Reino dos céus. As
Beatitudes estão na forma de paralelismo sintético, um tipo de poesia hebraica na qual a segunda linha completa o significado da primeira. Desse modo, aqui a segunda linha define mais especificamente a conotação de “bem-aventurado”. A primeira beatitude atinge diretamente o centro da necessidade do homem. Fitch
declara: “A pobreza de espírito é essencialmente o destronamento do orgulho”.12 Depois de declarar que “o orgulho é a própria essência do pecado”, ele continua dizendo: “O orgulho é o pecado de um individualismo exagerado, o pecado do usurpador reivindicando um trono que não é seu, o pecado que enche o universo com apenas um ego, o pecado de destronar a Deus de sua soberania de direito”.13
— b) Os que Choram (5.4). Quando alguém percebe que está falido de todos os bens
espirituais que o tornariam aceitável a Deus, irá chorar (4) sobre o fato. Lloyd-Jones escreve: “ ‘Chorar’ é algo que vem logo depois da necessidade de ser ‘pobre de espírito’ ”, e acrescenta: “Quando eu confronto Deus e a sua santidade, e contemplo a vida que devo viver, vejo a mim mesmo, o meu total desamparo e falta de esperança”.14 Este choro leva ao arrependimento e à conversão. Mas não pára aqui. Continua por
toda a vida do cristão consciencioso. Os maiores santos percebem mais intensamente o quanto carecem da perfeita semelhança com Cristo, e choram acerca disso. Só o cristão néscio pode se sentir complacente. A promessa para aqueles que choram é que eles serão consolados (cf. Is 57.18).
Isto acontece primeiro na consolação do perdão, e depois na consolação da comunhão. Um Cristo compassivo está especialmente perto daqueles que choram.
c) O Manso (5.5). O significado da verdadeira mansidão, infelizmente, tem sido com
freqüência mal-entendido. Por diversas vezes ele tem sido imaginado em termos de uma humildade modesta, negativa e quase falsa. Mas, na verdade, é algo muito diferente, mesmo quando se trata de alguém em relação ao seu companheiro. O arcebispo Trench escreve a esse respeito: “A mansidão é uma graça lavrada na alma; e o seu exercício está primeira e principalmente relacionado a Deus”.15 Ele acrescenta: “E aquele estado de espírito em que aceitamos os seus tratos conosco como bons e, portanto, sem discussão ou resistência”.16 De acordo com esta mesma opinião, Fitch diz: “A mansidão é a entrega a Deus, a submissão à sua vontade, o preparo para aceitar o que quer que Ele possa oferecer, e a prontidão para assumir a posição mais baixa”.17 Colocada em termos simples, a mansidão é a submissão à vontade de Deus. E isto não é primariamente negativo, mas positivo. É um cumprir ativo da vontade de Deus na nossa vida diária. Jesus Cristo é o Exemplo supremo de tal mansidão (cf. 11.29). Esta realização da vontade de Deus inclui uma avaliação correta de si mesmo, uma avaliação que leva a pessoa a “não saber mais do que convém saber” (Rm 12.3). Dos mansos é dito que eles herdarão a terra (5). O mundo acredita que o caminho
para vencer é fazer valer os seus direitos. Mas Jesus disse que aqueles que aceitam a sua vontade, um dia reinarão com Ele.
d) Os que têm Fome e Sede de Justiça (5.6). Um dos primeiros sinais de vida de um
bebê normal é a fome. Assim sendo, aquele que verdadeiramente nasceu de novo sentirá fome e sede de justiça (6) - o que nas Escrituras freqüentemente significa “salvação” (cf. Is 51.6). Para estes, é dada a promessa: eles serão fartos. A palavra grega é chortazo, de chortos, que é geralmente traduzida como “relva” no Novo Testamento. O quadro é o do gado que se alimenta até estar satisfeito. O verbo também é traduzido como “satisfeito”, e isto se encaixa muito bem aqui. Fitch observa: “A plenitude é a resposta de Deus para o vazio do coração do homem”.18
e) Os Misericordiosos (5.7). Aqueles que receberam a misericórdia de Deus devem
demonstrar misericórdia aos seus companheiros. A ilustração mais vívida de como é irracional se recusar a perdoar os outros, é apresentada na parábola do credor incompassivo (18.23-35). A parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37) dá um excelente
exemplo de misericórdia a alguém necessitado. A misericórdia tem sido definida como a “bondade em ação”. Bowman e Tapp sugerem que as Beatitudes aparentemente representam “um poema aramaico original em duas estrofes de quatro versos cada”.19 As quatro primeiras beatitudes descrevem: “primeiro, um despertar do seu estado de inadequação...; segundo, a determinação de ‘se converter’ a Deus com arrependimento...; terceiro, a adoção de uma atitude constante de confiança somente em Deus...; e finalmente, o profundo desejo de adquirir a ‘justiça’ completa que constitui a ‘salvação’ para o homem”.20 Fitch defende que a primeira estrofe descreve o nascimento do cristão, e que a segunda estrofe descreve a sua vida como cristão.21
f) Os Limpos de Coração (5.8). Sobre esta condição Whedon diz: “Aqui está um traço
de caráter que só o Espírito de Deus pode produzir. Isto é a santificação”.22 McLaughlin escreve: “Um coração puro é um coração que não tem, em si, nada que seja contrário ao amor de Deus”.23 Jesus declarou que somente os limpos de coração verão a Deus (8). E isto se refere
à vida aqui, bem como à vida futura. O pecado é como poeira nos olhos. Ele obscurece a visão e distorce a vista. Só podemos entrar em plena comunhão com o Senhor quando os nossos corações estão limpos de todo pecado (cf. 1 João 1.7). Apureza de coração é a finalidade e a soma das beatitudes anteriores. A possibilidade de
tal retidão interior está claramente implícita; mas também está aparente tanto nas Escrituras quanto na experiência universal de que ninguém é puro por natureza (Jr 17.9); os corações só podem ser puros se forem purificados. Nem mesmo a cultura humana poderá purgar as profundezas da corrupção; deve necessariamente haver uma obra da graça divina. O coração deve ser purificado de seu orgulho (Pv 16.5); se não, em vez de ser “pobre
de espírito” ele será arrogante e auto-suficiente; em vez de estar arrependido (alguém que chora verdadeiramente) ele será autocomplacente; em vez de ser “manso”, um homem será obstinado e impetuoso. O coração também deve ser purificado do duplo ânimo (Tg 4.8), do egoísmo e da contenda (Tg 3.14), e da incredulidade (Hb 3.12).
g) Os Pacificadores (5.9). Tiago diz em sua epístola que “a sabedoria que vem do alto
é, primeiramente, pura, depois, pacífica” (Tg 3.17). Esta é a ordem aqui. Somente os puros de coração, que foram limpos da natureza carnal (a causa de toda a luta interior), podem ter “a paz de Deus” plenamente em suas almas. Um coração dividido é um coração perturbado. Somente a paz de Cristo, nos controlando, pode nos tornar pacificadores. Ninguém gosta de um provocador. Mas o desafio para o cristão é: Será que sou um
pacificador - na comunidade, na igreja, em casa? Este último local é o teste mais difícil de todos. Filhos de Deus (9) é, no grego, literalmente, “filhos de Deus”. Quando o artigo
definido é omitido no grego, ele enfatiza o tipo ou o caráter. Quando as pessoas promovem a paz, elas são chamadas de “filhos de Deus” porque agem como Deus. No pensamento oriental “filho de” significa “ter a natureza de”.
h) Os que sofrem perseguição (5.10-12). Alguns estudiosos classificam as Beatitudes
em número de nove. Outros contam oito, considerando o versículo 11 como uma extensão adicional do versículo 10. Seguiremos este último método. Não se deve falhar em observar que aqueles que sofrem perseguição por causa
da justiça (10) são bem-aventurados. Alguns que se fizeram mártires a si mesmos alegam estar sendo perseguidos por causa da justiça, quando na verdade estão sofrendo por causa de sua própria ignorância. Quando criticados por agirem ou falarem de forma insensata, eles citam esta beatitude. Mas isto é “falsificar a palavra de Deus” (2 Co 4.2). Quando perseguido, o cristão deve exultar e alegrar-se (12). Jesus cita o exemplo
dos profetas que foram perseguidos nos tempos do Antigo Testamento. Mas, na verdade, Ele mesmo é o Exemplo supremo daquilo que é descrito no versículo 11. Alguém já disse que as Beatitudes são uma autobiografia de Cristo. As virtudes que Jesus exalta no Sermão do Monte são quase que exatamente o oposto daquelas admiradas pelos gregos e romanos em seus dias. Ele disse: Bem-aventurados são os pobres de espírito, os limpos de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição; os que choram, os mansos, os misericordiosos; e aqueles que têm fome e sede de justiça. Estas características também são contrárias ao espírito deste século. Bowman e Tapp se expressam assim: “Parece, então, que o nosso Senhor está esboçando uma personalidade salva que é forçada a viver em um mundo perdido; a justiça cercada pela iniqüidade, com as conseqüentes tensões assim criadas”.24 Um dos melhores resumos das oito Beatitudes é o apresentado por Fitch. Ele diz:
Elas se dividem naturalmente em quatro partes separadas. As três primeiras
nos mostram um homem se convertendo dos seus pecados a Deus, e a quarta nos mostra Deus se voltando para o pecador e revestindo-o com a justiça de Cristo. As três seguintes... nos mostram o filho recém-nascido de Deus operando as obras de justiça entre os homens; e a Beatitude final mostra como os homens reagem... Há, primeiro, três graças de uma alma contrita, seguidas pela resposta de Deus em misericórdia, em justiça e em paz. Então seguem-se três graças de uma alma comissionada, seguidas pela resposta do mundo em perseguição e reprovação.25
2. A Influência Deles (5.13-16) Jesus usou dois símbolos para descrever a influência que os cristãos têm sobre uma sociedade não-cristã. O primeiro foi o sal, e o segundo, a luz.
a) Como o Sal (5.13). O sal possui dois usos - dar gosto e conservar. 1) Alimentos
como mingau de aveia ou molhos são muito desagradáveis ao paladar sem sal. Durante a Idade Média, na Europa, quando as pessoas preparavam a maior parte de seu próprio alimento, elas ainda tinham que viajar para os mercados anuais para comprar sal. O sal era considerado um ingrediente absolutamente essencial. Dessa mesma forma, a vida sem Cristo e sem o cristianismo é insuportavelmente insípida. Assim como Cristo revitalizou e deu gosto à vida do crente, cada discípulo, por sua vez, deve fazer o mesmo pela vida de outros. 2) O sal conserva. Antes do advento das caixas de gelo e dos modernos refrigeradores, o sal era um dos principais meios de conservar os alimentos. Quando peixes eram transportados no lombo de burros por cento e sessenta quilômetros de Cafarnaum até Jerusalém, eles tinham que ser abundantemente salgados. Assim, o seguidor de Cristo deve agir como um conservante no mundo. Não se pode deixar de imaginar o que aconteceria com a sociedade moderna, com toda a sua podridão moral, se não fosse a presença da igreja cristã.
b) Como Luz (5.14-16). Jesus declarou certa vez: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12).
Aqui Ele diz aos seus discípulos: Vós sois a luz do mundo (14). Assim como a lua reflete a luz do sol no lado escurecido da terra, a igreja deve refletir os raios do “Sol da Justiça” (Ml 4.2) em um mundo escurecido pelo pecado. Os cristãos são como uma cidade edificada sobre um monte - uma imagem
comum na Palestina. Gostem ou não, eles estão expostos perante o mundo o tempo todo. Não se pode mais escapar de sua influência, assim como ninguém é capaz de fugir de sua própria sombra. O termo candeia (15) deve ser entendido como “lâmpada”; alqueire deve ser entendido como “medida de cereal” ou “cuba de farinha”; velador deve ser entendido como “castiçal”. Não se usavam velas nos dias de Jesus, mas pequenas lâmpadas de barro do tamanho aproximado da palma da mão de um homem. Muitas lâmpadas do tempo de Cristo foram desenterradas na Palestina. Nas casas sem janelas daqueles dias, a lâmpada deveria ser colocada em um pedestal, ou mais provavelmente em um nicho na parede de barro; ela daria luz a todos aqueles que estivessem na casa. Isto seria literalmente verdadeiro nas casas de apenas um cômodo das pessoas pobres da Palestina. O azeite era o combustível usado nestas lâmpadas. A luz dos discípulos deveria ser as suas boas obras (16). Se eles brilhassem de
forma coerente com aquilo que professavam, ela iria glorificar a Deus. Louvar ao Senhor com a nossa vida é mais importante do que louvá-lo com os nossos lábios.


Comentários
Postar um comentário