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C. A Justiça dos Discípulos, 5.17-48

1. Sua Natureza (5.17-20) Sem dúvida, alguns dos ouvintes de Jesus sentiram que Ele era revolucionário em seu ensino. Eles podem ter pensado que Ele pretendia destruir a lei ou os profetas (17). Isto Ele negou enfaticamente - não vim ab-rogar, mas cumprir. Nesta declaração muito significativa Ele indicou o seu relacionamento com o Antigo Testamento. Ele porém, vos digo”. Em grego, como no latim, o pronome está incluído na forma do verbo. Ele só é expresso separadamente quando o que fala ou o escritor quer dar uma forte ênfase. Lego significa “Eu digo”. O ego (Eu) não só é acrescentado aqui, mas também colocado em primeiro lugar na oração - a posição enfática em uma frase grega. Assim, a oração deveria ser lida: “Eu, porém, vos digo”. Falando dessa forma, ou Jesus era a pessoa que possuía o maior ego do mundo, ou era o que reivindicava ser - o eterno Filho de Deus, que falava com autoridade divina. Yinte séculos de história cristã têm validado a sua reivindicação. Blair corretamente observa: “O retrato de Jesus feito por Mateus se concentra na representação da autoridade de Jesus”.28 E Taylor disse bem: “Jesus sempre permanecerá como um desafio a ser alcançado em vez de um problema a ser resolvido”.29 E Ele que tem o direito de nos desafiar; nós não podemos desafiá-lo.

a) A Ira (5.21-26). Não matarás é o sexto mandamento do Decálogo (Êx 20.13; Dt

5.17). Jesus não o anulou. Antes, Ele lhe deu uma interpretação mais elevada: Se você está irado com seu irmão, você tem o homicídio em seu coração. Qualquer que matar alguém será réu de juízo (21). A referência é evidentemente ao

tribunal local, ligado à sinagoga. Mas Jesus declarou que qualquer que se encolerizar contra seu irmão30 será réu - um termo legal, “sujeito a” - de juízo (22). Isto é, ele estaria sujeito à ação do tribunal. Qualquer que dissesse a seu irmão, Raca - “uma palavra de contenda, considerada ser de uma raiz significando ‘cuspir’ ” - estaria sujeito à ação do Sinédrio (synedrion),31 o Grande Sinédrio em Jerusalém. Arndt e Gingrich definem Raca como “um termo de violência, loucura, leviandade”.32 Qualquer que dissesse, louco (grego, moron), estaria sujeito ao fogo do inferno (literalmente, “Geena de fogo”). Geena era o vale de Hinom, ao sul de Jerusalém. O refugo e o lixo da cidade eram

levados para fora pela Porta do Monturo (Ne 3.14; 12.31) e jogado no que agora seria chamado de lixão da cidade. Já no século I a.C. os judeus usavam Geena em um sentido metafórico para indicar um lugar de tormento atroz. As chamas terríveis lambendo constantemente a margem desse lixão formavam um símbolo adequado que Jesus usou aqui para as chamas do inferno. A aplicação da advertência acima é feita em duas esferas - a de adoração (23-24) e a

de processo legal (25-26). Se um judeu trouxesse uma oferta para o Templo para ser apresentada no altar - o altar das ofertas queimadas diante do santuário - e se lembrasse que seu irmão (23) tinha algo contra ele, ele deveria ir e se reconciliar com seu irmão antes de apresentar a sua oferta. A palavra grega para reconciliar-se (24; diallasso) no Novo Testamento, só é encontrada nesta passagem. Paulo usa katalasso, e o composto duplo apokatallasso, para a reconciliação unilateral que o homem deve ter com Deus. Isto é, o'homem deve cessar a sua inimizade contra Deus, e reconciliar-se através de Cristo. Mas diallasso denota “concessão mútua depois de hostilidade mútua”.33 O significado disso é claro. Quando alguém se reconcilia com Deus, tem que atender

as condições divinas, porque o erro está todo de um único lado. Mas quando alguém se reconcilia com seu irmão, ambos têm que fazer concessões, porque em toda discussão humana há dois lados. O que Jesus quer dizer, porém, é que a adoração de uma pessoa na casa de Deus não é aceita enquanto houver qualquer sentimento ruim entre o que seria o adorador e um “irmão”. O relacionamento com Deus não poderá estar correto, enquanto o relacionamento com um companheiro estiver errado.

A segunda aplicação (25-26) é um pouco diferente. O seu adversário está arrastando

você até o juiz (25). Jesus disse que seria mais sábio resolver o assunto fora do tribunal. Do contrário a pessoa não sairá da prisão até que tenha pago o último ceitil (26) - “o último centavo” (Goodspeed). O quadrante (kodrantes) era a menor moeda de cobre romana, valendo cerca de um quarto de um centavo. A questão é que os cristãos deveriam resolver as suas diferenças o mais rapidamente e o mais silenciosamente possível, e resolvê-las entre si mesmos. Os cristãos normalmente não precisam de um juiz ou um tribunal para decidir o que é certo e justo entre si (cf. 1 Co 6.1-8).

b) Adultério (5.27-30). Jesus citou o sétimo mandamento (Êx 20.14; Dt 5.18), e então

passou a lhe dar uma interpretação mais elevada. Ele indicou que aos olhos de Deus a intenção errada é tão pecaminosa quanto a ação errada. E Deus está igualmente ciente de ambos. Os versículos 29 e 30 mostram como a luxúria é algo sério. Jesus disse: Portanto,

se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti (29). A palavra grega para escandalizar é skandalizo (“escandalizar”). Ela vem do substantivo skandalon (“escândalo”), que era primeiro a isca de uma armadilha ou laço, e depois era usada como o próprio laço ou armadilha. Então o significado aqui é: Se olhar é uma armadilha ou laço para você, evite olhar de todas as maneiras. O verbo é traduzido como “tropeçar” na ARA e como “fizer pecar” na NVI. Lenski insiste no significado literal do verbo, e então traduz como “apanhar em armadilha”. Back apresenta “fazer você pecar”,34 o que é uma tradução interpretativa correta. Parece que o significado adequado é “colocar uma armadilha para” em vez de “colocar uma pedra de tropeço no caminho de”.35 Cristo declarou que seria melhor que alguém perdesse o seu olho direito ou a sua

mão direita do que ser lançado no inferno (Geena). Não podemos acreditar que Ele estivesse defendendo a mutilação física do corpo - embora no passado alguns tenham erroneamente tomado as suas palavras de forma literal. Ele estava falando metaforicamente: Se um amigo íntimo ou uma associação favorita de qualquer tipo estiver se tornando um laço para você, corte-o! É melhor ser desprovido de qualquer coisa nessa vida do que estar perdido para sempre.

c) Divórcio (5.31-32). Uma vez que o assunto do divórcio é discutido mais

detalhadamente em um capítulo posterior (19.3-12), uma consideração mais extensa será adiada até então. É suficiente dizer aqui que enquanto a Lei permitia o divórcio (Dt 24.13), Jesus afirmou que isso freqüentemente significava nada menos que o adultério legalizado (32).

d) Juramentos (5.33-37). A lei mosaica dizia: Não perjurarás (33; Lv 19.12; Nm

30.2; Dt 23.21), isto é, “jurar falsamente” - no Novo Testamento, este verbo só é encontrado aqui. Mas Jesus disse: De maneira nenhuma jureis (34). Ele proibiu especificamente jurar pelo céu, pela terra, por Jerusalém, ou pela nossa própria cabeça (3436). Os judeus defendiam que jurar pelo nome de Deus vinculava aquele que fazia o

juramento, mas jurar pelo céu não trazia nenhum vínculo. Assim, os itens acima eram substituídos como uma forma de subterfúgio, para não se dizer a verdade. Bengel cita o ditado rabínico: “Como o céu e a terra passarão, assim também o juramento passará, pois os conclamou como testemunhas”.36 Jesus defendeu que Deus está sempre presente quando os homens falam; por esta razão, todos devem falar honestamente. O mandamento de Cristo foi: Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não (37)

- ou, como Beck apresenta: “Simplesmente diga: ‘Sim, sim; não, não’ ’’.Apropria prática de jurar é um triste reflexo do caráter humano. Jesus exige honestidade o tempo todo, esteja um homem sob juramento ou não. Não há um padrão duplo para o cristão.

e) Retaliação (5.38-42). O princípio básico de justiça refletido na lei de Moisés era:

Olho por olho e dente por dente (38). Veja Êx 21.24; Lv 24.20; Dt 19.21. O propósito deste mandamento não era encorajar os homens a retribuir a agressão, mas proibi-los de executar uma penalidade maior que o crime. Jesus apresentou uma lei mais elevada, a da não-retaliação. Seu mandamento foi:

“Não retribua a agressão!” Ele aplicou este princípio de cinco maneiras específicas: ofereça a outra face (39), deixe levar a sua capa (40),37 acompanhe a pessoa em uma segunda milha (41), dê a quem lhe pedir, e não se desvie daquele que quiser que lhe empreste (42). Muitas pessoas têm presumido que essas palavras de Jesus devem ser entendidas

de forma totalmente literal. Mas pensar um pouco a respeito mostrará como esta posição é equivocada. Por exemplo, se um homem pedir algum dinheiro para comer - suponha que você lhe dê o que ele pede, e ele usar o dinheiro para se embriagar, será que você fez uma boa ação? Você agiu de acordo com um amor inteligente? Ou será que aquilo que você pretendia que fosse uma bênção se tornou uma maldição? O que Jesus estava ordenando era um espírito generoso e compassivo em relação aos necessitados. O que se deve sempre lembrar é que “a letra mata, e o Espírito vivifica” (2 Co 3.6). A

nova lei de Jesus é primeiramente um novo espírito. O Mestre estava principalmente interessado nas atitudes. Deve ser reconhecido que “o Sermão do Monte trata, em toda a sua extensão, de princípios e não de regras”.38

f)Amar os Inimigos (5.43-48). Nesta sexta e última aplicação da justiça mais elevada exigida dos cristãos, Jesus fez uma mudança de procedimento. Nos exemplos anteriores Ele só havia citado uma passagem do Antigo Testamento, e então dado uma interpretação mais grandiosa. Desta vez, para o mandamento bíblico, Amarás o teu próximo (43; Lv 19.18), Ele inseriu um acréscimo feito pelos mestres judeus, e aborrecerás o teu inimigo. Esta segunda parte não é encontrada em nenhuma passagem nas Escrituras Sagradas. Henry expôs bem a sua opinião: “Deus disse: Amarás o teu próximo', e por próximo eles entenderam somente aqueles de seu próprio país, nação e religião...; deste mandamento... eles quiseram inferir o que Deus nunca disse: Odiarás o teu inimigo”.39 Jesus se opôs a este falso ensino através do incisivo mandamento: Amai a vossos

inimigos (44). E natural amar os amigos; amar os inimigos é sobrenatural. Mas aqueles que assim o fazem demonstram que são filhos do Pai que está nos céus (45). Outra vez observe que a ausência do artigo denota o tipo ou a qualidade - mostrais que em caráter sois filhos de Deus. Pois Ele dá o sol e a chuva tanto para os maus como para os bons (45). Se mostrardes bondade somente aos amigos, não sereis melhores que os publicanos (46-47). Estes eram os cobradores de impostos para o governo romano, e eram desprezados pela maioria de seus compatriotas judeus como estando no patamar mais baixo da escala da iniqüidade.

Então vem o clímax deste capítulo: Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o

vosso Pai, que está nos céus (48). Este parece um conselho desesperador. Mas a interpretação correta é que na esfera humana devemos ser perfeitos, assim como Deus é perfeito na esfera divina. Este é o alvo e o objetivo da vida cristã. O contexto imediato sugere que perfeito deva ser interpretado como perfeição em

amor. Isto pode ser experimentado na vida, aqui e agora (1 Jo 2.5; 4.12, 17-18). Filson escreve: “Perfeito enfatiza a medida de toda a vida pelo amor santo e perfeito do próprio Deus, e faz do versículo 48 uma conclusão e um resumo adequados de tudo o que os versículos 17-47 disseram”.40 A perfeição transcendente do amor de Deus é vista em: 1) sua universalidade, pois

todos os homens estão incluídos; 2) sua compaixão, pois ele a estende aos ímpios e indignos, incluindo aqueles que não o amam em retribuição; 3) sua praticidade, pois busca ativamente o bem-estar deles enviando a chuva e o sol - e acima de tudo enviando o seu Filho. Somente quando o nosso amor é assim perfeito, é que ele pode ser considerado sobrenatural e verdadeiramente cristão. Tal amor não é só o nosso dever atual, mas o nosso privilégio atual, através do poder do Espírito. Sem ele, “o que fazemos mais do que os outros?” Deus graciosamente concede, a todos aqueles que buscam, um amor perfeito por Ele

e por sua vontade. Depois disso, o cristão busca uma manifestação ainda mais perfeita desse amor em sua vida e conduta. Por sermos finitos, essa perfeita manifestação nunca será completamente alcançada neste mundo, mas cada seguidor consagrado de Cristo deve, constantemente, se esforçar para alcançá-la (cf. Fp 3.12-14). O contexto imediato dos versículos 17-47 é importante, mas isso não é tudo. Aperfeição aqui deve ser explicada em termos de um contexto maior - todo o capítulo cinco. O comentário de John Wesley sobre este versículo é: “Referindo-se a toda esta santidade que é descrita nos versículos anteriores, que o nosso Senhor no início do capítulo recomenda como felicidade, e, na conclusão dele, como perfeição”.41 Estes seis últimos parágrafos do capítulo sugerem seis “Características da Perfeição

Cristã”. Elas são: 1) pacifismo (21-26); 2) pureza (27-30); 3) harmonia (31-32); 4) honestidade (33-37); 5) bondade (38-42); 6) amor (43-48).






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