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F. A Tentação de Jesus, 4.1-11 O Batismo foi um acontecimento público glorioso. Mas imediatamente após ele veio uma dura experiência privada. “Grandes bênçãos normalmente são seguidas por grandes tentações.”86 E ainda é verdade que “é necessária uma grande tentação, assim como uma grande graça, para se produzir um grande pregador”.87 Por que Jesus foi tentado? A Epístola aos Hebreus é aquela que responde mais profundamente a essa pergunta do que qualquer outra parte das Escrituras. Lemos a respeito de Cristo: “Pelo que convinha que, em tudo, fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque, naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (Hb 2.17-18). A última sentença declara uma verdade muito reveladora: Ele “sendo tentado, padeceu”. Isto não foi fingimento. Isto foi um estado de guerra, difícil e severo. As tentações de Jesus eram tão reais para Ele quanto as nossas são para nós - e igualmente angustiantes. Alguns diriam que, como Cristo era o Filho de Deus, Ele sabia que não iria fraquejar, não se entregaria. Mas isso faria das Suas tentações uma farsa vazia e negaria a afirmação clara da epístola aos Hebreus. Se Ele foi “de todas as maneiras tentado como nós somos”, deve ter sofrido o mesmo tormento e a mesma tortura na Sua própria consciência que nós sofremos quando somos fortemente tentados. É verdade que, como o Filho de Deus, Ele era onisciente. Mas há muitas indicações nos Evangelhos de que Jesus limitava o seu conhecimento na Sua verdadeira consciência. Isto fazia parte da encarnação, de tomar-se como nós. Foi parte do preço que Ele teve que pagar para ser ao mesmo tempo o nosso Sumo Sacerdote e o nosso Sacrifício pelos pecados. Jesus foi conduzido (1) do vale do rio Jordão (300 metros abaixo do nível do mar)

até às alturas do solitário deserto da Judéia. Os três sinóticos afirmam que Ele foi levado pelo Espírito ao deserto. Por um mandamento divino Ele foi para lá. Quando as coisas vão mal ou sofremos alguma severa tentação, é fácil pensar que podemos estar fora da vontade do Senhor. Mas quando Jesus estava sendo tentado, Ele estava no centro da vontade de Deus para a sua vida. Foi ao deserto que Ele foi levado. O contraste entre este lugar e o cenário da tentação de Adão e Eva é chocante. Eles estavam em um bonito paraíso, no Jardim do Éden. Ele estava no deserto desolado. Eles tinham tudo o que alguém poderia desejar para comer. Ele estava faminto. Eles tinham um ao outro. Ele estava sozinho. Apesar disso, eles fracassaram, ao passo que Ele triunfou. Uma das descrições mais explícitas da Tentação está na obra de Milton, Paradise

Regained (Paraíso Reconquistado). Milton retrata Satanás aproximando-se de Cristo na forma de um homem velho. Parece mais provável que as tentações específicas descritas aqui fossem sugestões mentais, como elas normalmente são para nós hoje em dia. No entanto, Broadus pensa de maneira diferente. Ele diz: “Durante os quarenta dias (Lc 4.2), e em outras ocasiões, o nosso Senhor sem dúvida foi tentado pela sugestão na sua mente, como acontece conosco; mas nas três tentações aqui descritas, parece estar claramente declarado que Satanás apareceu em uma forma corpórea e com palavras verdadeiramente pronunciadas, e isto torna a cena adequada para uma descrição distinta e impressionante”.88 Mas parece provável que Satanás tenha levado Jesus corporeamente até o pináculo do templo? O argumento conclusivo contra esse ponto de vista é o de que não existe na terra uma montanha de onde alguém possa ver todos os reinos do mundo (8). O propósito divino pelo qual Cristo foi levado até o deserto foi o de que Ele pudesse

ser tentado. A palavra grega é peirazo. Na literatura grega antiga (Homero) ela é usada com o sentido de “pôr à prova”. O seu significado principal é “testar, pôr à prova, provar”.89 Arndt e Gingrich dizem que ela significa “tentar, fazer um teste com, colocar em teste para descobrir que tipo de pessoa alguém é”.90 O Pai estava permitindo que o Seu Filho fosse posto à prova antes de começar o Seu trabalho público, como um metal que deve ser testado antes de poder ser usado com confiança em uma posição crucial. Mas, a partir do ponto de vista de Satanás, Jesus estava sendo tentado, seduzido ao pecado, na esperança de que Ele fracassasse. Isso também está indicado pela palavra “tentador” (peirazon) no versículo 3. Cristo foi tentado pelo diabo. Marcos nunca usa essa palavra; ao invés disso, ele

usa “Satanás” (Mc 1.13). Essa última palavra, que significa “adversário”, vem diretamente do hebraico para o grego e para o português. A palavra grega diabolos significa “caluniador” ou “falso acusador” e tornou-se diable em francês e diabo em português. As duas palavras são usadas como sinônimos no Novo Testamento. Negar o diabo de forma pessoal, significa tranqüilizar-se com um falso sentimento

de segurança. Nos últimos anos temos percebido, cada vez mais, que não é possível car a influência insidiosa do mal no nosso mundo sem postular a existência de um agente pessoal por trás das várias ocorrências. Jesus jejuou quarenta dias e quarenta noites (2), como fizeram Moisés no Monte

Sinai (Ex 34.28) e Elias no deserto (1 Rs 19.8). O número quarenta normalmente indica um período de teste. Foi isso o que ele representou para Jesus. E Jesus não falhou no teste. No final dos quarenta dias, Ele teve fome. Aparentemente Jesus estava tão absorvido nos conflitos espirituais e na contemplação que não sentiu fome até o final desse período. Então surgiu nele um intenso desejo de comer. Marcos faz apenas uma pequena afirmação resumida da Tentação, sem detalhar os três ataques específicos de Satanás. Mateus e Lucas dão os três, mas em ordens diferentes (veja os comentários sobre Lucas 4.1-13). M’Neile sugere que Lucas adota uma “seqüência geográfica”, com a mudança do deserto para a cidade, por último, ao passo que “Mateus organiza um clímax psicológico: a primeira tentação é duvidar da verdade da revelação recém-recebida; a segunda é testá-la; e a terceira é agarrar de forma prematura a posição de Messias que ela envolve”.91 A dúvida é uma das armas favoritas do diabo. A primeira coisa que ele disse a

Jesus foi: Se tu és o Filho de Deus (3).92 Ele se aproximou de Eva de uma maneira similar: “E assim que Deus disse...?” (Gn 3.1). Depois o diabo apelou para a fome de Jesus: manda que estas pedras se tornem em pães. Como diz Maclaren: “Satanás usou a mesma isca diante do primeiro Adão. Esta funcionou tão bem naquela ocasião, que ele se considerou esperto por trazê-la à baila uma vez mais”.93 Intrinsecamente, não haveria nada de errado em Jesus realizar um milagre para obter a comida de que necessitava. Mas obedecer Satanás é pecado. Além disso, Cristo tinha vindo para compartilhar a nossa humanidade conosco. Ele se recusava a usar qualquer poder que não estivesse disponível para nós. Ele não faria nada que pudesse representar uma negação da Sua encarnação. G. Campbell Morgan explica isso assim: “O inimigo pediu que Ele fizesse uma coisa certa de uma maneira errada, para satisfazer um apetite legítimo de uma maneira ilegal, para fazer uso dos privilégios do Filho violando as suas responsabilidades”.94 A primeira coisa que Jesus disse em resposta foi, está escrito (4). A expressão está

em um tempo perfeito em grego, o que indica a ação terminada e também o estado resultante como ainda continuando. O significado completo é: “Foi escrito e ainda permanece escrito”. Isso enfatiza a eternidade e a imutabilidade da Palavra de Deus. Jesus encontrou e derrotou o diabo com a mesma arma que nós temos à nossa disposição: “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Ef 6.17). Nas três vezes Ele fez citações do livro de Deuteronômio. A primeira citação foi: O homem não viverá só de pão, mas que de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem (Dt 8.3). Jesus vivia pela Palavra de Deus, não pelos caprichos do Seu próprio apetite. Nisto, Ele dá um exemplo para todos os Seus seguidores. Na segunda tentação, o diabo levou Jesus até a cidade Santa (5). No Novo Testamento, esta designação para Jerusalém só é encontrada em Mateus e no livro do Apocalipse. Ela ocorre cinco vezes no Antigo Testamento. O diabo colocou Cristo sobre o pináculo do templo, o lugar mais alto da cidade santa. Morgan destaca com propriedade: “A escolha do lugar é a principal prova da astúcia do adversário”

Nesse cenário, consagrado por associações sagradas, provavelmente com uma multidão esperando embaixo, Satanás faz uma abordagem completamente diferente. Desta vez ele apela para a confiança total de Jesus em Deus Pai. Antes, a tentação estava no plano físico. Desta vez está em um plano espiritual: Se tu és o Filho de Deus (ou “Já que você é o Filho de Deus”), lança-te daqui abaixo (6). Tão sagrado era o cenário, que o próprio diabo se sentiu incentivado a citar as Escrituras. Ele tentou citar Salmos 91.1112. Mas omitiu uma frase importante: “em todos os teus caminhos”. Os caminhos de Cristo são os caminhos de Deus. Se Ele se afastasse da vontade divina não poderia mais reivindicar a proteção divina. Isso é verdadeiro hoje em dia para nós. Os judeus daquele templo esperavam que o seu Messias aparecesse repentinamente,

espetacularmente, no Templo. Aqui estava a oportunidade de Jesus ganhar a aclamação de toda a nação como o seu Messias. Mas Ele resistiu a esta tentação do sensacionalismo. Ao invés disso, Ele iria seguir o caminho simples da humilde obediência ao Seu Pai. Jesus brandiu a Sua Espada outra vez - a Palavra de Deus. Dessa vez Ele disse:

Não tentarás o Senhor, teu Deus (7). O comportamento temerário evidencia não a fé, mas a presunção. O cenário da terceira tentação foi também diferente: um monte muito alto (8).

Aqui o diabo fez a sua aposta mais alta. Depois de dar a Cristo uma visão de todos os reinos do mundo e da glória deles, fez esta surpreendente proposta: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares (9). Que tentação era esta - a de ganhar o mundo inteiro sem ir até a cruz! A essência da tentação foi a de tentar atingir os objetivos aprovados por Deus, usando as estratégias de Satanás. Jesus rejeitou também esta proposta aparentemente plausível. Ele disse a Satanás que se retirasse. Uma vez mais Jesus citou a Palavra: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás (10). (Veja Dt 6.13.) Aqui está a primeira e mais alta obrigação do homem. Satanás tentou Jesus em três planos: 1) o físico - alimento; 2) o intelectual - fazer

alguma coisa sensacional; 3) o espiritual - adore-me. O diabo ainda tenta os homens nesses três planos. Em obediência à ordem de Cristo, o diabo se retirou. Então chegaram os anjos e o

serviram (11). Eles provavelmente lhe trouxeram comida (cf. 1 Rs 19.5-7) e também lhe ministraram espiritualmente, regozijando-se com Ele na vitória que havia alcançado.







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