G . O s Primeiros T empos na G aliléia, 4 .1 2 -2 5
1. A Primeira Pregação (4.12-17) A prisão de João Batista é o ponto de partida cronológico do grande ministério de
Jesus na Galiléia, como indicado nos dois primeiros Evangelhos (cf. Mc 1.14). Quando Jesus soube que João estava preso, voltou para a Galiléia (12), isto é, Ele voltou do deserto da Judéia, mais ao sul, para a sua casa. Com João na prisão, era chegada a hora de Jesus começar o seu ministério público. E Ele estava preparado para isso - já havia passado por Seu batismo e por suas tentações. Mas Ele não ficou em sua cidade, Nazaré. Ao invés disso, Ele foi habitar em Cafarnaum (13), cerca de trinta quilômetros na costa norte do lago da Galiléia. A lha desse lugar como sua base foi sábia. Nazaré era uma cidade pequena e obscura nas montanhas. O seu povo era tacanho e não receberia o seu ministério, como sabemos, com base na maneira como Ele foi tratado quando visitou a sua cidade (Lc 4.16-30). Nesse ambiente provinciano, Ele sofreu uma forte oposição. Por outro lado, Cafarnaum era uma cidade agitada, repleta de atividades comerciais. Aqui as multidões seriam mais abertas e receptivas. Muitos poderiam estar indo e vindo, e desta forma o evangelho seria difundido. Pelo fato de a cidade estar situada na principal estrada para Damasco ao norte até o Egito no sul, esta era uma localização estratégica. Novamente (14) aparece a fórmula de se apresentar uma citação do Antigo Testamento - para que se cumprisse o que foi dito (14; cf. 1.22; 2.15,23). Esta citação é de Isaías 9.1-2. Mateus faz quinze citações deste príncipe dos profetas do Antigo Testamento. Por causa das suas muitas passagens messiânicas, o livro algumas vezes foi chamado de “O Evangelho Segundo Isaías”. Zebulom e Naftali (15) eram os dois territórios tribais que abrangiam a Galiléia.
Zebulom ficava na parte ocidental, na direção do Mediterrâneo, enquanto Naftali ficava mais para o leste, perto do lago da Galiléia. O caminho do mar significa a importante estrada do Egito até Damasco, pela qual as caravanas dos comerciantes passaram durante muitos séculos. Essa região era chamada Galiléia das Nações, ou Galiléia dos gentios, porque ela
tinha uma população gentílica maior do que a Judéia. A razão para isso remonta aos dias de Isaías. Quando os assírios começaram a invadir a Palestina, eles naturalmente tomaram os territórios mais afastados em primeiro lugar. Em 2 Reis 15.29 está escrito: “Nos dias de Peca, rei de Israel, veio Tiglate-Pileser, rei da Assíria, e tomou a Ijom... a Gileade, e à Galiléia, e à toda a terra de Naftali, e os levou para a Assíria”. No lugar dos habitantes nativos ele colocou povos dos países do leste (2 Rs 17.24). Assim, a população de Samaria, e em um grau menor a da Galiléia, tornou-se uma mistura de judeus e gentios. Também é verdade que muitos cananeus tinham permanecido na região mais tarde conhecida como Galiléia, que assim teve mais gentios durante o período dos juizes e dos reis (cf. Jz 1.30-33; 4.2). Mas Isaías tinha predito que nessa região haveria uma grande luz (16). Mateus
destaca o início do ministério de Jesus na Galiléia como o cumprimento dessa profecia. Quando Jesus começou a pregar (17) - a mesma palavra, “arauto, proclamar”, como
usada a respeito de João Batista (3.1) - Ele adotou o mesmo texto do seu predecessor: Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus. A última frase, é chegado, significa literalmente “está próximo”. Como alguém disse, “Jesus é Deus, trazido para perto”. Nele os judeus eram confrontados com o reino de Deus, um reino que se recusaram a aceitar.
2. Os Primeiros Discípulos (4.18-22) Quando Jesus estava andando junto ao mar da Galiléia (18), Ele viu dois irmãos
que pescavam. Um deles era Simão. Este é um nome muito comum entre os judeus da época de Jesus, talvez em parte por causa do Simão que foi um grande herói na revolta dos Macabeus do século II a.C. Há nove pessoas diferentes chamadas Simão no Novo Testamento. Jesus deu a este o sobrenome Pedro, que é a palavra grega para “pedra” André é principalmente conhecido como o irmão de Pedro, e assim é identificado aqui.
Mas foi ele que primeiro levou o seu irmão a um contato com Cristo (Jo 1.40-42). André foi quem avisou que um menino tinha um almoço, com o qual cinco mil pessoas foram alimentadas (Jo 6.8-9). Assim como Barnabé é ofuscado por Paulo, André parece escondido à sombra de Pedro. Mas ele teve o seu próprio papel e executou-o de forma fiel e eficiente. Os dois irmãos estavam lançando as redes ao mar. Isto era feito nas águas rasas
perto da praia. Para esse propósito se usava um tipo especial de rede. Ela tinha pesos para que pudesse chegar ao fundo e encerrar um cardume de peixes. O mesmo tipo de rede ainda é usado nas fontes de água morna na praia do lago da Galiléia, ao sul de Cafamaum. Jesus dirigiu-se a esses dois pescadores com uma ordem e uma promessa: Vinde
após mim, e eu vos farei pescadores de homens (19). Ele tinha uma convocação mais elevada e uma tarefa maior para eles. O negócio mais importante do mundo é ganhar almas. Pedro e André foram privilegiados por serem os dois primeiros que Jesus convidou para acompanhá-lo em seu trabalho. Este versículo sugere o tema: “A convocação mais elevada”, que pode ser resumida
assim: 1) o chamado divino - vinde após mim; 2) a preocupação divina - eu vos farei; 3) a missão divina - pescadores de homens. Não houve hesitação por parte daqueles que ouviram o chamado. Eles, deixando
logo (“imediatamente”) as suas redes, seguiram-no (20). Estes pescadores reconheceram que era a voz do Mestre que lhes falava, e obedeceram. Um pouco mais adiante, Jesus viu um barco de pescadores perto da praia. Nele
estavam Zebedeu e seus dois filhos, Tiago e João (21). Eles estavam consertando as redes, preparando-se para outra noite de pescaria. Jesus também os chamou para segui-lo. Da mesma maneira que aconteceu com os outros dois, imediatamente - a palavra grega que também significa “logo” (v. 20) - Eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no (22). A repetição dessas duas palavras enfatiza o fato de que se alguém vai seguir Jesus em período integral, deve deixar a sua ocupação anterior. E um fato intrigante que Cristo tenha chamado quatro pescadores como os seus
primeiros discípulos. Ele ainda chama homens de todos os setores da sociedade para pregar o Seu Evangelho. Ele precisa de homens firmes e corajosos, que aprenderam a enfrentar as dificuldades com paciência e perseverança. Estes quatro homens são sempre citados em primeiro lugar nas listas dos doze apóstolos (Mt 10.2-4; Mc 3.16-20; Lc 6.14-16; At 1.13). Três deles (Pedro, Tiago e João) parecem ter sido particularmente íntimos de Jesus. Nós os vemos com Ele quando ressuscitou a filha de Jairo, no Monte da Transfiguração, e no Getsêmani. Dois deles, Pedro e João, estão fortemente associados nos capítulos iniciais de Atos (por exemplo, 3.1; 8.14). Pedro foi o principal porta-voz do círculo apostólico, tanto nos Evangelhos quanto em Atos. Foi ele que proferiu o Sermão do Dia de Pentecostes (At 2). Tiago era evidentemente um líder reconhecido no grupo, porque ele se tornou o primeiro mártir entre os apóstolos (At 12.2).
3. As Primeiras Multidões (4.23-25) Este parágrafo abrange uma afirmação muito breve de um percurso pela Galiléia
(23) que Jesus fez logo depois de alistar os seus primeiros quatro assistentes. O seu ministério tinha três funções definidas: ensinar... pregar... curar.
O ensino ocorria, em primeiro lugar, nas sinagogas. Estes eram os lugares de adoração nas cidades e nos povoados. Elas também funcionavam como escolas, onde os meninos judeus podiam memorizar as Escrituras. Os tribunais locais estavam ligados às
sinagogas, assim elas formavam o centro da vida na comunidade. George A. Buttrick diz: “A sinagoga era ao mesmo tempo uma escola, um conselho local e uma igreja”.96 Nem o Antigo Testamento nem os textos apócrifos nos contam qualquer coisa sobre
a origem da sinagoga. Mas as razões para o seu surgimento parecem bastante óbvias. Quando o Templo em Jerusalém foi destruído em 586 a.C., os judeus ficaram sem um lugar para adoração. No cativeiro eles se reuniam naturalmente para orar. A palavra grega synagoge quer dizer “uma reunião”. O mesmo aconteceu com a palavra “igreja”, que foi usada primeiramente para a congregação, e posteriormente para o edifício onde ela se reunia. Jesus pregava o Evangelho do Reino. Estas eram as boas-novas de que o reino de
Deus estava sendo oferecido aos homens na pessoa de Cristo, o Messias. Além disso, Ele estava curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. Não havia limites para o seu poder. Nenhum caso era difícil demais para Ele. Ele era o grande Médico do corpo, assim como da alma. A sua fama correu (24). A expressão Toda a Síria incluía a Palestina, assim como o
território ao norte dela incluía os atuais países da Síria e do Líbano. Como um resultado dessa publicidade, os doentes eram trazidos até Ele vindos de todas as partes. Eles são descritos como aqueles que padeciam acometidos de várias enfermidades e tormentos. A palavra tormentos, que pode ser traduzida como torturas, enfatiza a dor e o sofrimento causado pelas doenças. Entre aqueles que vinham estavam os endemoninhados (aqueles que eram possuídos por demônios - a palavra em grego é daimonizomenous, “endemoninhados”). Os lunáticos, da mesma maneira, correspondem a uma palavra, seleniazomenous, que literalmente significa “afetado pela lua”. A palavra era usada com referência a epilépticos que supostamente tinham sido influenciados pela lua. Os paralíticos são simplesmente paralytikous. Diz-se que ele os curava de todos esses casos difíceis. O verbo é therapeuo, de onde vieram palavras como “terapia” e “terapeuta”. A popularidade de Jesus é ressaltada pelo fato de que Ele atraía uma grande multidão (25) - literalmente “grandes multidões” - de todos os territórios vizinhos. A Galiléia era a parte norte da Palestina. Decápolis literalmente quer dizer “dez cidades”. Este era o nome dado principalmente à região a leste do vale do Jordão, e que compreendia dez cidades que eram helénicas na cultura e nos interesses. Elas se estendiam desde Damasco no norte até Filadélfia (a moderna Amã) ao sul. Esta área era principalmente de influência gentílica. Stendahl diz que “em Decápolis os judeus devem ter sido a minoria”.97 Jerusalém era a capital da Judéia, na parte sul da Palestina. O fato de as pessoas viajarem 160 quilômetros a partir do norte, de Jerusalém até a Galiléia, mostra o tremendo poder de atração de Jesus. Além do Jordão - uma região atualmente chamada de Transjordânia - era uma região oficialmente conhecida naquela época como Peréia (literalmente “do outro lado”). Esta região do lado leste do rio Jordão era governada por Herodes Antipas, governador da Galiléia. Tendo dado essa descrição geral do início do ministério de Jesus na Galiléia, Mateus
agora estabelece o cenário para o Sermão da Montanha. Este é o primeiro de cinco grandes discursos neste Evangelho.


Comentários
Postar um comentário